Premissa (desculpem pelo post longo): sobre o produto em si, o B10, tenho pouco a criticar. É um carro muito bom, com uma relação qualidade/preço que, no segmento, impressiona de verdade, e muitos de nós sabíamos perfeitamente que estávamos a comprar algo “experimental”, novo, com inevitáveis bugs de juventude. Não é esse o ponto. O problema não são os defeitos em si, mas COMO são geridos e comunicados aos clientes.
Nos últimos meses vimos de tudo: desde o bug do V2L que, em certos casos, literalmente bloqueia o carro ao ativar o modo vehicle‑to‑load sem conseguir mais desativá‑lo, até se tornar um caso discutido publicamente em vários grupos e fóruns. Não é realista pensar que uma marca jovem não tenha problemas técnicos, mas é inaceitável que a impressão, de fora, seja a de uma gestão “ao dia”, em que cada informação chega aos pedaços, muitas vezes só porque algum cliente exasperado levanta o caso online.
Mesmo filme com a atualização OTA prometida para o B10: anunciada como o update que traria Android Auto e Apple CarPlay no início de 2026, com referências nas apresentações oficiais e nos sites estrangeiros, e depois sucessivamente adiada, reformulada, empurrada para a frente. Há posts em que os clientes perguntam quando é que vai chegar de verdade, outros em que se fala de datas para o fim de dezembro que depois viraram janeiro, noutros mercados até a partir de 30/12 sem que todos vejam a atualização. Isto não é um simples atraso técnico: é falta de uma comunicação clara e unívoca para quem já pagou o carro e está à espera de funções que tinham sido apresentadas como iminentes.
Além disso, há as pequenas‑grandes imprecisões na fase de venda: carro publicitado com dois carregadores wireless e depois, na prática, descobre‑se que há apenas uma base de carregamento; promessa, precisamente, de Android Auto presente ou “de qualquer forma disponível em breve via atualização”, que de facto depende exatamente daquela OTA que está a ser adiada; versão europeia despotenciada em relação à chinesa, por exemplo pela falta de sensores dianteiros, sem que isto tenha sido bem explicado desde o início. Cada um destes elementos, tomado isoladamente, até poderia ser tolerável; todos juntos, porém, desenham um quadro bastante dececionante sobre como a informação é gerida.
O que muitos de nós pedem não é perfeição técnica, mas honestidade e clareza: um roadmap público das atualizações (mesmo indicativo, mas atualizado e realista), comunicações oficiais quando há bugs importantes (como o do V2L) com indicação de prazos e modalidades de correção, e sobretudo alinhamento entre o que dizem o marketing, os concessionários e a documentação oficial. Não é possível que, para saber o que está a acontecer, tenhamos de andar à caça de comentários em grupos de Facebook ou fóruns, enquanto o construtor permanece em silêncio ou se limita a fórmulas vagas.
Se a Stellantis/Leapmotor quer realmente construir uma reputação sólida na Europa, tem de entender que quem compra estes carros não é um beta‑tester mudo, mas um cliente informado que aceita o risco de um produto jovem em troca de inovação… com a condição, porém, de ser tratado com respeito. E respeito, neste contexto, significa comunicação transparente, coerente e tempestiva, não promessas anunciadas em grande estilo e depois adiadas até ao infinito.